16 de jan de 2011

LEPROSO! LEPROSO! LEPROSO!

  por Cleiton Heredia



Antigamente, mais precisamente nos tempos do antigo Israel bíblico, quando uma pessoa encontrava-se acometida de hanseníase, popularmente conhecida como lepra, era obrigada por lei a afastar-se de todo tipo de convívio social. Ele deveria deixar o seu lar e o seu trabalho, afastando-se por completo de sua família e dos seus amigos. A partir do momento que a doença fosse detectada seus únicos companheiros poderiam ser somente os outros leprosos igualmente marginalizados.

Como se não bastasse toda a dor causada pelo afastamento daqueles que ele mais amava, ainda era obrigado a se submeter à um humilhante costume exigido naquela época. Cada vez que um leproso visse uma pessoa normal se aproximando dele, deveria gritar para que todos pudessem ouvir:

- "Leproso! Leproso! Leproso!"

Desta forma as pessoas seriam avisadas para desviarem seu caminho e não se aproximarem daqueles que eram vistos como miseráveis pecadores amaldiçoados por Deus.

Os anos se passaram e aqui nos encontramos já vivendo o século XXI. A humanidade evoluiu cientificamente e com isso o bacilo Mycobacterium leprae foi identificado transformando a lepra em apenas mais uma doença passível de ser tratada e curada. Somente acho lamentável que a mentalidade de muitos seres humanos não tenha evoluído na mesma proporção que a ciência avançou.

Vivemos em um mundo onde 97% das pessoas são de alguma forma religiosas, ou seja, acreditam em algum tipo de força superior transcendente e sobrenatural denominada deus ou deuses. Os 3% que não pensam da mesma forma e se atreveram em algum momento de suas vidas a se declararem ateus ou ateus agnósticos, são vistos por esta esmagadora maioria de religiosos como verdadeiros leprosos morais.

Os familiares religiosos os rejeitam, os amigos religiosos se afastam e até no trabalho correm o risco de serem demitidos pelos seus patrões igualmente religiosos. Quando estes marginalizados do mundo da fé procedem de algum tipo de comunidade religiosa, passam a ser alvo de uma espécie de asco e ódio "santificados" por parte daqueles que antes lhes chamavam de irmãos.

O antagonismo que recebem é tão gritante que nem precisam mais alardearem pelos quatros cantos: "Leproso! Leproso! Leproso!". O mundo religioso é quem se incumbe de dar o sinal de alerta mediante sistemática difamação e insinuante calúnia: "Cuidado, aquele ali é um ateu!"; "Apostatou da fé!"; "Abandonou a Deus!"

Quanto a lepra, ainda entendo que havia uma razão lógica para, naquele tempo, afastarem os contaminados. A doença era contagiosa e não tinha cura. Mas e quanto ao ateísmo? Ele é contagioso? De forma alguma! Só se torna ateu quem quer. Ele não tem cura? Eu acredito que não, porém os "sãos" nada tem a temer, pois além de já estarem vacinados com a fé, não existe qualquer risco de contaminação involuntária.

Então, por que um ateu precisa ser tratado como um leproso? Eu sinceramente não entendo. Eles continuam sendo as mesmas pessoas. Suas convicções mudaram, mas não o seu caráter. É claro que existem bons e maus ateus, assim como existem bons e maus religiosos. Se um religioso é honesto e cumpridor das leis, a tendência é que, caso um dia venha se tornar um ateu, continue sendo honesto e cumpridor das leis.

Este negócio de pensar que a concepção da inexistência de Deus torna tudo válido, só passa pela cabeça pequena de pessoas que não entendem nada de cidadania e respeito ao próximo. Somente um péssimo religioso faz o que é certo com vistas na recompensa e com medo do castigo. Um bom religioso faz o que é certo simplesmente porque é a coisa certa a ser feita. Um bom ateu também!

O que mais me entristece nesta história é saber que estes "cristãos", que agem de forma discriminatória e desrespeitosa para com os ateus (leprosos?), tiveram em seu Mestre máximo um exemplo bem diferente.

Jesus não excluiu os leprosos de seu convívio, nem muito menos os considerou párias da sociedade.

Jesus os amou!
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NOTA DESTE BLOGGER: Creio que não precisa comentários.

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