10 de mai de 2011

PLANTINGA: EVOLUCIONISMO E NATURALISMO SÃO INCOMPATÍVEIS?

Por: Carlos H.


Prove. A palavra ressoa desafiadora em nossos ouvidos. Quantos vezes já não fomos obrigados a provar o que quer que fosse? E o que fizemos então? O que pode ser aceito como prova cabal de que algo é verdadeiro, consequentemente taxando tudo aquilo que o contraria como falso? Mesmo que haja uma definição universal de prova, como podemos prová-la verdadeira? Método científico? Ele é incapaz de estabelecer como verdadeira uma frase tão simples quanto “o método científico é verdadeiro” pois toda e qualquer prova iria supor como verdadeiro aquilo que se está tentando mostrar como verdadeiro, em um legítimo raciocínio circular.
Para se provar qualquer coisa, portanto, é preciso antes de uma suposição inabalável e absolutamente correta sobre a qual possamos alicerçar todas as nossas demais crenças. Essa verdade absoluta precisa ser suposta e não pode ser provada, pois toda a prova deverá supô-la como verdadeira. Se a ciência permite um conhecimento legítimo e verdadeiro da Realidade, então precisaremos aceitar a metodologia científica como uma suposição dogmaticamente correta e infalível. Mas se é este o caso, por que postular como verdadeiro o metódo científico de gerar conhecimento e não outro qualquer como a reveleção sobrenatural? Princípios lógicos? Mesmo eles precisam ser cridos e não podem ser provados. Como se prova logicamente que a lógica é fiel ao que é Real? Vem a calhar aqui o bom e velho exemplo das contas matemáticas (que derivam da lógica): Como provar matematicamente qual de duas contas erradas está “menos” errada?
Stephen Hawking, em seu livro “The grand design”, utiliza o exemplo do peixe dourado no aquário para demonstrar essa miserável limitação humana. Devido ao formato do aquário – do qual o peixe jamais pode sair exceto pela morte – o peixe enxerga tudo de uma perspectiva diferente da nossa. Raios de luz retilíneos lhe apareceriam tortos e as formas que ele enxergaria seriam verdadeiras bizarrices para nós. No entanto, isto não o impediria de ter uma ciência que lhe fosse própria. Ele poderia calcular a trajetória do tal raio de luz e poderia ter uma geometria muito peculiar que lhe permitisse compreender – seja lá o que se compreende por isso – seu mundo. Ele seria capaz de adquirir conhecimento cumulativo e cada vez mais preciso sobre seu mundo, mas seria também incapaz de perceber que, na verdade, sua visão do que é real está sendo distorcida por um aquário. Inevitável questionar-nos: E se nós mesmos estivermos presos em um aquário?
É bem possível que estejamos. Como saber? Nossas crenças, que fundamentam nossos conhecimentos e, sejam eles científicos ou não, não podem provar, visto que são incapazes de sair do aquário. Como saber se a realidade tem mesmo três dimensões? Ou quatro? Ou doze? Ou duas, sendo a teceira apenas ilusória? Ou mesmo sete, sendo que duas delas são ilusórias e as outras cinco são reais, mas das três que enxergamos, todas são ilusórias? Não se trata aqui de avanço científico: Não temos como saber se estamos avançando em direção à Verdade ou em direção à ilusão. Pascal concordaria que podem haver demonstrações verdadeiras e condizentes com a Realidade, mas se o são, não temos como saber.
Para que possamos compreender melhor os pontos fortes e fracos da mais recente investida de Plantinga, precisamos ter o acima exposto bem compreendido. Plantinga, para quem não conhece, é um professor de filosofia relativamente famoso por trazer a crença em Deus – o teísmo – a um nível novamente respeitável no meio filosófico. Ao menos esta é a opinião de muitos dos que com ele concordam. Plantinga adotou uma postura intelectualmente combativa ao materialismo e ao ateísmo. Porém, ele o faz de forma muito diferente de alguém como o teólogo William Lane Craig, que parece utilizar-se de uma artimanha muito comum no meio acadêmico brasileiro: Falar asneira com convicção. A postura de Plantinga inclui elaboração de argumentos que visam, em geral, demonstrar a irracionalidade do materialismo, objetivo do argumento que abordarei aqui, e também demonstrar a racionalidade da crença em Deus – o que é diferente de querer provar racionalmente a realidade de Deus – fazendo uso, por exemplo de sua versão modal do argumento ontológico.
Este é um ponto importante a compreender em Plantinga, pois é um dos pontos fortes de seus argumentos: Eles não visam estabelecer nenhuma verdade dogmática. Plantinga acredita sim, em Deus e ele tem sim um dogma a seguir. Porém, seus argumentos no âmbito filosófico, ao menos até agora, não buscaram de forma nenhuma estabelecer dogmatica e racionalmente a verdade absoluta daquilo em que Plantinga acredita e sim demonstrar que crer naquilo que ele crê pode ser tão racional e irracional quanto acreditar em qualquer outra coisa. Isto é algo duro de engolir para os cientistas e os neo-ateus, pois Plantinga está certo. Porém, somente no sentido de que um materialismo e um ateísmo dogmáticos são insustentáveis. Ele erra, no entanto, ao advogar que estes sejam impossíveis. Seu argumento não os refuta. Ao contrário, os torna irrefutáveis, o que não é novidade em se tratando de hipóteses metafísicas. Plantinga errará ainda mais se afirmar ser Deus uma certeza absoluta.
Em resumo, o argumento de Plantinga afirma que, se o evolucionismo é verdadeiro, então nossa capacidade de observar, analisar e de nos relacionarmos com o que é Real deve ser severamente questionada, visto que a seleção natural privilegia o que aumenta as chances de sobreviência e reprodução, em detrimento de uma capacidade de enxergar a realidade como ela realmente é. Num exemplo do próprio Plantinga: ao sapo não faz diferença se ele comer a mosca porque acredita ser aquilo necessário para algum processo de seu organismo ou se ele comer a mosca porque crê que se transformará em um príncipe encantado quando conseguir “acertar a mosca certa”. Ele come a mosca e sobrevive para se reproduzir, e é o que importa para a seleção natural.
Embora alguns possam objetar certos detlahes técnicos, de forma geral, o argumento de Plantinga é muito pertinente e mortal, mas não contra o materialismo e sim contra o materialismo dogmático. Não contra o naturalismo, mas contra o naturalismo dogmático. Em suma: contra toda forma de dogmatismo. Se somos, como creio, apenas corpos e viemos de um universo puramente físico que não pensa (se pensasse, seria Deus) como podemos pensar? Como podemos ter certeza de qualquer coisa se, no fundo, toda certeza não passa de um determinado estado físico? Uma sensação de certeza? É por isso que todo aquele que pretender ter qualquer tipo de certeza absoluta sem abertura à dúvida precisará postular um dogma anterior a todo e qualquer conhecimento. E este dogma, seja ele qual for, deve ser aceito sem questionamento.
É neste ponto que Plantinga afirma que, aqueles que crêem em Deus, não tem receios quanto à veracidade daquilo que vêem e sentem, pois se a Realidade é um espírito, algo que pensa, sabe, quer, ou seja, Deus e se ele nos fez à sua imagem e semelhança, presumivelmente nos deu a capacidade de conhecimento. É neste ponto que Plantinga sai de seu próprio argumento, passando a apresentar uma versão elaborada de Deus que seria capaz de fugir ao problema do naturalismo imposto pelo evolucionismo. Evolucionismo, aliás, que Plantinga vê como uma espécie de “processo Divino” guiado por Deus para que cheguemos até aqui e, quem sabe, partamos para algo melhor. De forma tão miserável quanto os materialistas, no entanto, ele nada pode fazer para provar que estas suas crenças são tão ou mais verdadeiras do que as crenças materialistas.
Ao sair do âmbito metafísico em que enquadrou seu argumento, Plantinga voltou para o aquário de nossa realidade (e não Realidade). Ele pode sim, hipotetizar à vontade sobre o que há lá fora, mas se quiser hipotetizar aqui dentro, terá de seguir as regras do jogo, especialidade da ciência. Por mais que se sinta à vontade para supor que, quem acredita em determinada coisa não precisa se preocupar com este ou aquele problema filosófico, isto não eliminará, de forma nenhuma, todos os problemas filosóficos enfrentados pela crença em Deus. Se assim fosse, porque ele precisaria de qualquer outro argumento que não este?  Aqui, ele terá de fazer uso de nossa lógica limitada, de nossas crenças bizarras, de nossa irracionalidade e de nossa miserável e necessária convivência com a incerteza. Não que devamos deixar de pensar  só pelo fato de não podermos alcançar a verdade absoluta. Ao contrário: Se tivéssemos acesso à ela, para que pensaríamos?
Aqui dentro, a ciência já mostrou a que veio e a ela pouco importa como são as coisas lá fora. De lá nada se pode saber. É este, aliás, o princípio do critério de demarcação definido por Popper. Tudo o que está no aquário está no domínio da ciência. Fora do aquário é terra sem lei.

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