21 de jun. de 2011

PARTE I

Resolvi escrever alguma coisa.
Entrei para a igreja com vinte e sete anos de idade. Igreja evangélica. Ou, digamos assim, voltei para a igreja aos vinte e sete anos de idade.
Meu pai estava doente e era minha base de vida, apesar de não conversarmos muito. Mas não achava justo que ele morresse tão jovem. Aos 55 anos de idade, vítima de um câncer em 1994.
Voltando um pouco no tempo, era meio incrédulo nestas coisas religiosas. Meu pai sempre foi um religioso e me levava nas missas todos os domingos junto com minha mãe e meus irmãos. Ainda não sabia o que era Deus ou do que se tratava este nome. Criança. Só queria saber de brincar.
Lembro-me de ter crescido com raiva de igreja porque eu preferiria estar no clube tomando banho de piscina ou mesmo jogando bola com meus primos, como era de costume na ainda pequena cidade de Teresina, estado do Piauí.
Fomos para São Paulo. Moramos quatro anos por lá. Bairro Jardim Bonfigliolli, à Rua Tapejara, não direi o número, pois meu pai vendeu a casa e creio que há moradores por lá. Um grande espaço. Um belo sobrado. Garagem para dois carros. Um corredor por fora enorme que em e meu irmão jogávamos bola de chute a gol. Por dentro da casa, no térreo, duas amplas salas, estar e visitas. Um banheiro de visitas. Uma ampla cozinha e uma área de serviços grande atrás com direito a dependência de empregada. Ao subir a escada estavam os quartos e mais dois banheiros. Saudades grandes. Gostava muito de São Paulo, mas meu pai continuava a nos levar para a missa todos os domingos.
Aquela voz do padre querendo dizer que era de fora, com sotaque arrumado dentro da igreja, assim como os pastores do bispo Macedo, que falam iguais a ele e os gestos são os mesmos. São totalmente preparados e treinados nos seus trejeitos.
Depois de São Paulo fomos para Belém do Pará. Linda Belém, onde conheci minha esposa, onde meus filhos nasceram. As coisas melhoraram, porque meu pai passou a viajar mais e só íamos para a igreja quando ele estava em casa.
Quando completei meus vinte e seis anos, ele aparece com câncer e sua vida começa a decair, juntamente com sua saúde. Alguém disse para mim que Deus era amor e Jesus era fiel e que iria curar meu pai. Aceitei a proposta, minha mãe e meus irmãos também. Estávamos todos emocionados. Angustiados. Tensos. Pois a cada dia meu pai definhava mais e mais. A nossa sorte era que os três mais velhos já trabalhavam e eu estava incluído neste meio.
Foram pastores e mais pastores na minha casa. Pulos, gritos, eu nada entendia daquilo. Meu pai faleceu, apesar dos pulos e gritos e de tantas orações.  Alguém nos pregou que o propósito de Deus era levar nosso pai para que a família se entregasse a Jesus. Com o velho jargão: se não vem pelo amor, vai pela dor. Pensar que eu acreditei nisso!
Dito e feito. Entregamos-nos a Jesus. Nessa época já estava casado. Nasceu meu filho em meio à dor de meu pai. Alguém disse: Deus está dando uma nova vida e uma nova esperança. Seis meses depois morre minha sobrinha de cinco anos com câncer no sangue: leucemia e a quimioterapia a abate muito e ela não resiste. Que nova esperança é essa?
Continuei na igreja. Fui aprendendo coisas que não conhecia. Comecei a ler a bíblia. Dediquei-me profundamente ao estudo dela, tanto que achei que tinha chamado para ser pastor. Fui músico (ainda sou, mas aposentado). Cantava, ministrava. Fui líder de louvor. Criei uma reunião de louvor na igreja denominada Louvor Saudade que até hoje existe dentro dela. Fui líder de ministérios, como o de casais. Fui líder de jovens. Evangelizava. Orientava casais, jovens, adultos e crianças. Participei de muitos movimentos de casais e jovens. Professor em escola bíblica dominical. Fazíamos shows em praça pública. Vigílias de oração. Consagração. Jejum.
Via muitas pessoas falando em “línguas estranhas” (sem tradução), pulos, gritos, cai-cai, mas nunca comigo. Muitos diziam que eu não me consagrava ou não me consagrava direito ou não pedia aquilo para mim. Fiz tudo isso e nada acontecia.
Escrevia artigos para revistas evangélicas. Em 2004 entrei para a faculdade e fiz Teologia. Formei-me final de 2008, início de 2009. 
Era muito proselitista e muito apegado às coisas de Deus. Não aceitava nada que fosse de encontro aos dogmas que aprendi. Não ousava ler outra coisa que não fosse ligado à palavra de Deus. Mas a própria Teologia trouxe-me coisas novas. Pude ver Filosofia. Sociologia. Antropologia. Matérias que nunca tinha estudado anteriormente e comecei a aprofundar-me nas informações.
Não me contentava mais só com o que via e lia na bíblia, comecei a buscar mais leituras. Fui consagrado a pastor em 2009, só que alguma coisa havia mudado.

PARTE II

Muitas igrejas levam seus obreiros a estudarem Teologia com o objetivo de capacitá-los mais para o ministério pastoral.  Quando a Teologia não é proselitista como exige o MEC, você vê muitas coisas que para muitos não era para se ver. Por isso, grandes igrejas formam suas próprias turmas de Teologia e os preparam com suas próprias informações. Com seus dogmas, interpretações e tradições.
            Foi este tipo de “informações” que passei a questionar. Já não mais acreditava em tudo aquilo que via, lia e não me contentava mais com a falta de respostas plausíveis. Não queria mais contentar-me com a fé. Ela já não era tão suficiente assim. Para piorar em 2009 fui consagrado a pastor.
            A coisa começou a pesar mais ainda. Via a alegria e ao mesmo tempo a preocupação estampadas no rosto de minha esposa. Ela também foi consagrada à pastora. Será que ela já percebia a mudança? Não duvido. A mulher percebe muito mais longe do que gente.
            Agora como lhe dar com o ministério e as mudanças de convicções? Foi um ano de sofrimento, pregar aquilo que não mais acreditava. Nunca daria certo e não deu. A igreja em um ano saiu de 04 pessoas (eu, minha esposa e meus dois filhos) para 58 pessoas. Comecei a transparecer que havia mudado. Que não mais acreditava em tudo da bíblia. Comecei a tirar os pulos, os gritos, o cai-cai, a língua só se fosse com tradução. A igreja percebeu ao longo de seis meses e logo dividiu-se e 50 pessoas saíram com os outros dois pastores que me auxiliavam. Restaram apenas oito. Que atitude tomar? Assumi de vez minha condição de não mais cristão. De não mais crer na bíblia como palavra de Deus. Entreguei o ministério. Assumi junto à minha esposa que já sofria demais com todo o acontecimento. Assumi junto aos meus filhos. Sou bombardeado. Se não fosse pela minha família e meu trabalho, talvez estivesse só hoje. Sou chamado de rebelde e que o diabo está trabalhando em minha vida, ou outros chegam e dizem que tudo isso é propósito de Deus. Foi um choque para minha esposa, mães e meus filhos. Para mim foi pior ainda. Só que tudo tem mudado.  
            Aprendi também que ética e moral não são relacionadas à religião alguma, pois existem religiosos que não as tem. É proveniente da própria pessoa
            Não posso dizer que me tornei um ateu convicto. Só o que sei sobre Deus é proveniente da bíblia, que já não mais creio. Quero ter a coragem de ainda buscar a Deus através de outros caminhos. Se assim continuar, a probabilidade é muito grande de não crer na sua existência, pois passei por grandes momentos de angústia após assumir e chorei muito, creio que só não fiquei pior porque tinha meu trabalho e caí de cabeça nele.
Foram doze anos de evangelho com dedicação. No meu apartheid, nos meus momentos de angústia, tristeza, solidão, lágrimas, após perder a fé, não recebi sequer uma palavra de Deus de consolo. Peço que ele o faça nestes momentos, pois a palavra dele para outros não serve para mim. A “revelação” dele para outros, não serve para mim. Eu quero ouvir dele próprio o que tem a dizer como orientação. Ainda não veio a mim em nenhum momento. Não me interessa o que tem os outros a dizer, pois o que eles tem a me dizer eu conheço.
As pessoas não aceitam que você tenha mudado. Que você foi utilizado grandemente dentro da igreja e não tem mais nenhum interesse ou mesmo credibilidade.

PARTE III

A minha tese de defesa no final da Teologia foi Criação versus Evolução. Li bons livros. Acessei sites sérios. História. Ciência. Antropologia. Filosofia. Ateístas. Argumentos lidos. Vi contradições históricas, temporais, que me fizeram refletir. Pensar. Pesquisar. Não me deixar mais levar pelas emoções, mas usar mais a razão.
Tornei-me honesto comigo mesmo e passei a me questionar. Abri meus olhos e ouvidos. O que faz crer que este povo tem prioridade sobre um livro sagrado que diz ser a palavra de Deus? Nada. Há informações discrepantes. Há conceitos na Teologia que não condizem com a verdade. Há jargões que são utilizados só para enganar. Há informações com não condizem com a matemática, probabilidade. Com o raciocínio lógico.
Assim como muitos, quero continuar com a coragem para questionar, criticar, pensar, não aceitar todas as coisas como única verdade, principalmente proveniente da religião.
Quero que as pessoas passem a ser honestas consigo mesmas e busquem por significados e não retenham para si somente o que lhes disseram.
Estou ainda engatinhando, mas o faço com responsabilidade. Vou continuar a jornada de crescimento e desmistificando a minha consciência.

29 de mai. de 2011

BLAISE PASCAL

Blaise Pascal afirmou certa vez que: "Não se pode provar que Deus existe. Mas se Deus existe, o crente ganha tudo (céu) e o descrente perde tudo (inferno). Se Deus não existe, o crente nada perde e o descrente nada ganha. Portanto, há tudo a ganhar e nada a perder ao acreditar em Deus.” 

Esse era um pensamento correto e exemplar. Só que, quando se começa compartilhar com outros princípios e idéias, pode-se entender que esta frase ou colocação não há sentido nenhum.

Primeiramente aqui ele não afirma que a existência de Deus é presente e certa, mas sim fala sobre o crer em Deus. Mas pergunto: a que Deus ele se refere? Que Deus e de qual religião? Seria o Deus cristão? Judeu? Budista? Hinduísta? Islâmico? Jesus? Yahweh? Devas? Visnu? Brahma? Alá?

Como um bom católico creio que ele afirma ser o Deus judeu que consequentemente seria o próprio Yahweh, que é o mesmo Alá adorado pelos muçulmanos. Será que poderia ser os dois? Fica uma certa confusão nesta questão.

Como escrito neste artigo, Conversão em palavras, nos demonstra como se dá uma conversão, muitas vezes por uma uma ameaça profunda quando não se possui nenhuma crença em um Deus ou religião determinada. São palavras altamente ameaçadoras, que não causam credibilidade, mas somente palavras de intimidação.


Se há um Deus ou algo existente que domine este vasto universo, creio que, se fomos criados sua imagem e semelhança, como costumam dizer, não há razão nenhuma para sermos devorados ou destruídos porque alguém não crê ou já não se tem mais certeza de sua existência. A verdade é que não há indícios convincentes para tal crença. E sobre este assunto, creio que não cabe a estes o peso da justiça de um deus irado descrito por Pascal. Mesmo porque, se há um Designer, o desenho foi feito erroneamente e o desenho não pode questionar o seu desenhista, ele é simplesmente fruto daquilo que o primeiro desenvolveu. O que tem o desenho de culpa nisso? Nada.


O pensamento deve ser livre.


Muita gente perdeu tempo, dinheiro, conhecimento e acima de tudo liberdade, quando se propõe a dedicar-se a uma religião. O pior é que não se pode voltar mais no tempo, só tentar recuperar o que já foi perdido.

Uma coisa sabemos: existem muitos que estão dentro das igrejas por puro medo de retaliação espiritual e que seja jogado no "fogo do inferno". Muitos se comportam não como adoradores de seus deuses, mas simplesmente por medo de um futuro de sofrimento. É como se fossem por um simples alívio da consciência e sintam-se mais leves por terem cumprido seu dever semanal. Outros fazem atrocidades porque creem que serão fartos no seu paraíso e outros fazem bondades porque também esperam recompensas em seu paraíso prometido.

Então o que se pode dizer é que essa aposta fala-se somente sobre o crer e não o existir, além disso, Pascal não levou em consideração os tipos de infernos que hoje são pregados pelas diversas religiões, o que torna mais difícil ainda sua aposta ter dado certo.

23 de mai. de 2011

Pastor diz à esposa moribunda: Apegue-se a Jesus, pois nos encontraremos de novo

Essa foi a frase que iniciou o seu artigo o Sr. Julio Severo em seu blog de mesmo nome.
Fala sobre a perseguição de islâmicos ou muçulmanos à cristãos na Nigéria.
Existe este tipo de problema em todo lugar.
Escrevi um comentário: " Disse Karl Marx: a religião é "ópio do povo" e eu fui mais longe dizendo que a mesma é "a arma de qualquer povo" seja ela em qualquer lugar, cidade, estado ou nação. Muitas pessoas continuarão morrendo em defesa de sua religião: cristãos, islâmicos, budistas, hinduístas, e etc. A religião só existe porque o homem crê que a sua é melhor que a do outro e mata por ela".
O pior é que entre eles mesmos há uma grande cisão, discensão, divisão. Os católicos e protestantes continuam se degladiando e se auto-matando em nome do cristianismo na Irlanda. Os islâmicos continuam se matando e se auto-degladiando porque uns são sunistas, outros xiitas. Os budistas não se entendem muito bem com o pessoal chinês, devido a libertação do Tibete e sempre há quebra-pau (desculpem o termo). Os hinduístas parecem não se darem bem com os muçulmanos (pensei que eles só perseguissem os cristãos) e abrem fogo contra seus opositores. O mais engraçado é que seu líder maior Mahatma Ghandi escreveu, entre outras frases esta aqui: A minha vida é um Todo indivisível, e todos os meus atos convergem uns nos outros; e todos eles nascem do insaciável amor que tenho para com toda a humanidade. Os hinduístas são ótimos para demonstrarem isso.
A história está cheia de atrocidades causadas pela religião e continuam a causar até hoje e vão continuar causando no futuro. Afinal, o que se pode esperar da religião? 
Julio Severo, sei que você não deve ler bloguizinhos chulas, pequenos e de pouca valia como este, mas seja bem vindo para efetuar seus comentários aqui. Eles são publicados na mesma hora. Afinal, gostaria de saber por que você acha que sua religião é melhor que a dos outros? pergunta que fiz e não respondido e muito menos publicada em seus comentários. O que ela tem de melhor para oferecer? O que o faz pensar que ela é melhor e a mais certa? Baseado ou firmado em quê? Por que você acha que seu livro sagrado é superior aos outros livros sagrados?
Fique à vontade. Como mostra a foto do Barack: a fala é sua!!!!!

21 de mai. de 2011

CORAGEM PARA MUDAR


Quando a gente passa a reconhecer que estava errado, os mais chegados que nos viram fazer coisas em prol do reino de Deus, não aceitam e nem conseguem entender que simplesmente você deixou de crer em tudo aquilo que cria, não por rebeldia ou mesmo frustrações como dizem, mas pelo fato de investigações sérias e respostas sem sentido provenientes do lado religioso.

Eis alguns fatos que me fizeram mudar e repensar em muita coisa e creio que repensar, raciocinar e investigar sejam alvos mais interessantes de se buscar.

Escrevo-os em conjunto com o Ricardo Gondim (em negrito e itálico). Alguns grifos meus aparecem junto dos dele.

1. Não consigo mais acreditar no Deus que interfere na humanidade, que necessita de ouvir orações somente "verdadeiras" para fazer alguma coisa. Tudo depende de nós. Se há um Deus, quero buscá-lo e alcançá-lo com minha razão.

2. Não consigo mais acreditar que os milagres de Deus sejam prêmios que privilegiam poucos. Não consigo entender que Deus se comporte como um "intervencionista" de micro realidades, deixando exércitos de ditadores “correrem frouxos". Inquieta-me saber que Deus tenha uma "vontade permissiva" para multinacionais lucrarem com remédios que poderiam salvar vidas. Não aceito que haja uma razão eterna para que governos corruptos atolem os mais pobres na mais abjeta miséria.

3. Não consigo mais acreditar que Deus, mantendo o controle absoluto de tudo o que acontece no universo, tenha sujado as mãos com Aushwitz, Ruanda, Darfur, Iraque e outras hecatombes humanas. Não aceito que ele, parecido com um tapeceiro, precisa dar nós malditos do lado de cá da história enquanto, do outro lado, na eternidade, faz tudo perfeito. Qual o propósito de Deus ao “permitir” que crianças sejam mortas pela loucura de um atirador ou que uma menina esteja paraplégica com bala perdida? Ou Ele é capaz de combater o mal e não o faz tornando-se cruel ou Ele não tem essa capacidade tornando-se um fraco.

4. Não consigo mais acreditar que a função primordial da religião seja acessar o sobrenatural para tornar a vida menos sofrida. Os cristãos, em sua grande maioria, tentam fazer da religião um meio de controlar o futuro e a mente dos incautos e sem conhecimento de causa; praticam uma fé preventiva, pois aceitam como verdade que os verdadeiros adoradores conseguem se antecipar aos percalços da vida; afirmam que os ungidos sabem prever e anular possíveis acidentes, doenças, ou quaisquer outros problemas existenciais do futuro. Fosse assim não precisaríamos de remédios, médicos ou mesmo de planos de saúde, o que os pastores exigem de seus membros para que façam para eles. Os mesmos ungidos que antevêem alguma coisa. Creio que a verdadeira fé não foge da lida, mas encara o drama de viver com coragem e receber e agarrar as oportunidades que vida nos entrega em qualquer nível.

5. Não consigo mais acreditar em determinismo, mesmo chamado por qualquer nome: fatalismo, carma, destino, oráculo. Não acredito que o mundo funcione como um relógio de quartzo. Tenho cá minhas dúvidas de quem ou o que realmente criou o mundo, mas acredito que tem espaço para a contingência. Sem esse espaço não seria possível a liberdade humana. Creio que no meio do caminho entre determinismo e absoluta casualidade resida o arbítrio humano. Entendo que liberdade é vocação: homens e mulheres acolhendo o intento do Criador para que a história e o porvir sejam construídos responsavelmente. Fazendo atos, que a razão nos cobra por fazer, certos, responsáveis e de caráter moral para o bem e não porque alguém determine que o façamos nos dando algo em troca disso.

6. Não consigo mais aceitar a bíblia como palavra de Deus ou outro livro sagrado que seja. Eles só servem para quem os aceitou como sua verdade: aceitam como autoridade porque entenderam que aquilo faz parte de seu dogma ou doutrina e que me assustam quando muitas vezes servem para destruir a intimidade, personalidade, cidadania e direitos de outros seres humanos.

7. Não consigo mais acreditar nas palavras dos oradores e jargões provenientes das igrejas.

8. Não consigo mais ver histórias que mais parecem fábulas sendo empurradas de goela abaixo de um determinado povo como sendo a verdade absoluta e inquestionável para todo um mundo, passando por cima da lógica, matemática, geografia, história, cronologia.
 
Talvez eu possa lembrar mais alguma coisa e vir a escrever uma segunda parte e que com certeza terá. Mas, o que mais me interessa hoje é saber que me sinto livre desde que perdi a fé na fé e passei a procurar um chão mais firme e não viver de lacunas.

10 de mai. de 2011

PLANTINGA: EVOLUCIONISMO E NATURALISMO SÃO INCOMPATÍVEIS?

Por: Carlos H.


Prove. A palavra ressoa desafiadora em nossos ouvidos. Quantos vezes já não fomos obrigados a provar o que quer que fosse? E o que fizemos então? O que pode ser aceito como prova cabal de que algo é verdadeiro, consequentemente taxando tudo aquilo que o contraria como falso? Mesmo que haja uma definição universal de prova, como podemos prová-la verdadeira? Método científico? Ele é incapaz de estabelecer como verdadeira uma frase tão simples quanto “o método científico é verdadeiro” pois toda e qualquer prova iria supor como verdadeiro aquilo que se está tentando mostrar como verdadeiro, em um legítimo raciocínio circular.
Para se provar qualquer coisa, portanto, é preciso antes de uma suposição inabalável e absolutamente correta sobre a qual possamos alicerçar todas as nossas demais crenças. Essa verdade absoluta precisa ser suposta e não pode ser provada, pois toda a prova deverá supô-la como verdadeira. Se a ciência permite um conhecimento legítimo e verdadeiro da Realidade, então precisaremos aceitar a metodologia científica como uma suposição dogmaticamente correta e infalível. Mas se é este o caso, por que postular como verdadeiro o metódo científico de gerar conhecimento e não outro qualquer como a reveleção sobrenatural? Princípios lógicos? Mesmo eles precisam ser cridos e não podem ser provados. Como se prova logicamente que a lógica é fiel ao que é Real? Vem a calhar aqui o bom e velho exemplo das contas matemáticas (que derivam da lógica): Como provar matematicamente qual de duas contas erradas está “menos” errada?
Stephen Hawking, em seu livro “The grand design”, utiliza o exemplo do peixe dourado no aquário para demonstrar essa miserável limitação humana. Devido ao formato do aquário – do qual o peixe jamais pode sair exceto pela morte – o peixe enxerga tudo de uma perspectiva diferente da nossa. Raios de luz retilíneos lhe apareceriam tortos e as formas que ele enxergaria seriam verdadeiras bizarrices para nós. No entanto, isto não o impediria de ter uma ciência que lhe fosse própria. Ele poderia calcular a trajetória do tal raio de luz e poderia ter uma geometria muito peculiar que lhe permitisse compreender – seja lá o que se compreende por isso – seu mundo. Ele seria capaz de adquirir conhecimento cumulativo e cada vez mais preciso sobre seu mundo, mas seria também incapaz de perceber que, na verdade, sua visão do que é real está sendo distorcida por um aquário. Inevitável questionar-nos: E se nós mesmos estivermos presos em um aquário?
É bem possível que estejamos. Como saber? Nossas crenças, que fundamentam nossos conhecimentos e, sejam eles científicos ou não, não podem provar, visto que são incapazes de sair do aquário. Como saber se a realidade tem mesmo três dimensões? Ou quatro? Ou doze? Ou duas, sendo a teceira apenas ilusória? Ou mesmo sete, sendo que duas delas são ilusórias e as outras cinco são reais, mas das três que enxergamos, todas são ilusórias? Não se trata aqui de avanço científico: Não temos como saber se estamos avançando em direção à Verdade ou em direção à ilusão. Pascal concordaria que podem haver demonstrações verdadeiras e condizentes com a Realidade, mas se o são, não temos como saber.
Para que possamos compreender melhor os pontos fortes e fracos da mais recente investida de Plantinga, precisamos ter o acima exposto bem compreendido. Plantinga, para quem não conhece, é um professor de filosofia relativamente famoso por trazer a crença em Deus – o teísmo – a um nível novamente respeitável no meio filosófico. Ao menos esta é a opinião de muitos dos que com ele concordam. Plantinga adotou uma postura intelectualmente combativa ao materialismo e ao ateísmo. Porém, ele o faz de forma muito diferente de alguém como o teólogo William Lane Craig, que parece utilizar-se de uma artimanha muito comum no meio acadêmico brasileiro: Falar asneira com convicção. A postura de Plantinga inclui elaboração de argumentos que visam, em geral, demonstrar a irracionalidade do materialismo, objetivo do argumento que abordarei aqui, e também demonstrar a racionalidade da crença em Deus – o que é diferente de querer provar racionalmente a realidade de Deus – fazendo uso, por exemplo de sua versão modal do argumento ontológico.
Este é um ponto importante a compreender em Plantinga, pois é um dos pontos fortes de seus argumentos: Eles não visam estabelecer nenhuma verdade dogmática. Plantinga acredita sim, em Deus e ele tem sim um dogma a seguir. Porém, seus argumentos no âmbito filosófico, ao menos até agora, não buscaram de forma nenhuma estabelecer dogmatica e racionalmente a verdade absoluta daquilo em que Plantinga acredita e sim demonstrar que crer naquilo que ele crê pode ser tão racional e irracional quanto acreditar em qualquer outra coisa. Isto é algo duro de engolir para os cientistas e os neo-ateus, pois Plantinga está certo. Porém, somente no sentido de que um materialismo e um ateísmo dogmáticos são insustentáveis. Ele erra, no entanto, ao advogar que estes sejam impossíveis. Seu argumento não os refuta. Ao contrário, os torna irrefutáveis, o que não é novidade em se tratando de hipóteses metafísicas. Plantinga errará ainda mais se afirmar ser Deus uma certeza absoluta.
Em resumo, o argumento de Plantinga afirma que, se o evolucionismo é verdadeiro, então nossa capacidade de observar, analisar e de nos relacionarmos com o que é Real deve ser severamente questionada, visto que a seleção natural privilegia o que aumenta as chances de sobreviência e reprodução, em detrimento de uma capacidade de enxergar a realidade como ela realmente é. Num exemplo do próprio Plantinga: ao sapo não faz diferença se ele comer a mosca porque acredita ser aquilo necessário para algum processo de seu organismo ou se ele comer a mosca porque crê que se transformará em um príncipe encantado quando conseguir “acertar a mosca certa”. Ele come a mosca e sobrevive para se reproduzir, e é o que importa para a seleção natural.
Embora alguns possam objetar certos detlahes técnicos, de forma geral, o argumento de Plantinga é muito pertinente e mortal, mas não contra o materialismo e sim contra o materialismo dogmático. Não contra o naturalismo, mas contra o naturalismo dogmático. Em suma: contra toda forma de dogmatismo. Se somos, como creio, apenas corpos e viemos de um universo puramente físico que não pensa (se pensasse, seria Deus) como podemos pensar? Como podemos ter certeza de qualquer coisa se, no fundo, toda certeza não passa de um determinado estado físico? Uma sensação de certeza? É por isso que todo aquele que pretender ter qualquer tipo de certeza absoluta sem abertura à dúvida precisará postular um dogma anterior a todo e qualquer conhecimento. E este dogma, seja ele qual for, deve ser aceito sem questionamento.
É neste ponto que Plantinga afirma que, aqueles que crêem em Deus, não tem receios quanto à veracidade daquilo que vêem e sentem, pois se a Realidade é um espírito, algo que pensa, sabe, quer, ou seja, Deus e se ele nos fez à sua imagem e semelhança, presumivelmente nos deu a capacidade de conhecimento. É neste ponto que Plantinga sai de seu próprio argumento, passando a apresentar uma versão elaborada de Deus que seria capaz de fugir ao problema do naturalismo imposto pelo evolucionismo. Evolucionismo, aliás, que Plantinga vê como uma espécie de “processo Divino” guiado por Deus para que cheguemos até aqui e, quem sabe, partamos para algo melhor. De forma tão miserável quanto os materialistas, no entanto, ele nada pode fazer para provar que estas suas crenças são tão ou mais verdadeiras do que as crenças materialistas.
Ao sair do âmbito metafísico em que enquadrou seu argumento, Plantinga voltou para o aquário de nossa realidade (e não Realidade). Ele pode sim, hipotetizar à vontade sobre o que há lá fora, mas se quiser hipotetizar aqui dentro, terá de seguir as regras do jogo, especialidade da ciência. Por mais que se sinta à vontade para supor que, quem acredita em determinada coisa não precisa se preocupar com este ou aquele problema filosófico, isto não eliminará, de forma nenhuma, todos os problemas filosóficos enfrentados pela crença em Deus. Se assim fosse, porque ele precisaria de qualquer outro argumento que não este?  Aqui, ele terá de fazer uso de nossa lógica limitada, de nossas crenças bizarras, de nossa irracionalidade e de nossa miserável e necessária convivência com a incerteza. Não que devamos deixar de pensar  só pelo fato de não podermos alcançar a verdade absoluta. Ao contrário: Se tivéssemos acesso à ela, para que pensaríamos?
Aqui dentro, a ciência já mostrou a que veio e a ela pouco importa como são as coisas lá fora. De lá nada se pode saber. É este, aliás, o princípio do critério de demarcação definido por Popper. Tudo o que está no aquário está no domínio da ciência. Fora do aquário é terra sem lei.

1 de mai. de 2011

A CRIAÇÃO DO MITO DE JESUS




Os evangelhos não se pretendiam uma narrativa história mas um “midrash” (uma composição de trechos das Escrituras que, do ponto de vista do autor, estão relacionados e confirmam a mensagem que ele quer transmitir). Ou parábolas com o enxerto de referências históricas. A intenção dos evangelistas não era registrar com precisão os fatos mas transmitir ensinamentos religiosos.

Paulo foi um dos principais criadores da figura de Jesus. Ao cair do cavalo na estrada para Damasco, vítima de insolação ou epilepsia, julgou estar divinamente inspirado. Analisou as Escrituras em busca de revelações ocultas e, acreditando que toda e qualquer idéia que lhe ocorria também era inspiração de Deus, pareceu-lhe ter nelas encontrado o anúncio da vinda de Jesus.

O mundo de Paulo ainda era fortemente influenciado pela civilização grega, sua cultura e seus deuses. Para os gregos e seus vizinhos, a verdadeira realidade era a realidade mítica, onde viviam deuses e anjos. O mundo material era apenas um reflexo dela, as sombras na caverna de Platão. As Escrituras não continham profecias, mas revelavam um pouco desta verdadeira realidade.

O sofrimento e morte de Jesus eram fatos já ocorridos nessa realidade espiritual, num tempo diferente do nosso, assim como as aventuras dos deuses gregos, não algo que ainda ocorreria no mundo material (NOTA 1). Era desta “realidade” que falava Paulo, não de um Jesus de Nazaré, de carne e osso. E seus “fatos” vinham das Escrituras e das revelações de um Jesus espiritual. Na verdade, era Deus que fazia as revelações. Jesus era apenas seu canal de comunicações, o “Logos” grego, a “Sabedoria” judaica. Paulo descobriu “sobre” Jesus nas Escrituras e inspirações divinas, não “da boca de” Jesus. Jesus era o “segredo que esteve escondido durante eras” e que foi revelado por Deus.

Era necessário ter fé nesse Jesus mítico, espiritual, como Paulo por tantas vezes insiste.

Mas por que seria necessário ter fé em que um homem existiu neste mundo, morreu e ressuscitou? Isto seria um fato histórico, não algo só acessível através da fé. Foi só mais tarde que se criou o conceito de um Jesus feito homem. Sua biografia foi tirada das Escrituras. As narrativas do A.T., que foram sua origem e contavam uma história já ocorrida, tornaram-se aos poucos profecias a respeito de sua futura vinda.

Mesmo em livros escritos por volta do ano 120 d.C. ainda se mencionam passagens do A.T. como fonte, não os evangelhos (que já deveriam ter sido escritos e ser muito famosos e conhecidos, se tivesse havido um Jesus e seus discípulos estivessem ativamente difundindo seus ensinamentos).

Mas ninguém fala “conforme eu ouvi da boca de Jesus”, “conforme ensinou Fulano, que foi discípulo de Jesus”. Paulo só vai a Jerusalém anos depois de cair do cavalo e nem menciona os lugares santos ou sua emoção em visitá-los. Vai lá apenas para se encontrar com Pedro. E ninguém menciona Pilatos e o julgamento de Jesus.

Paulo era o mestre, não Jesus. Em todas as suas disputas com os outros discípulos, ele jamais foi acusado de distorcer as palavras de Jesus. Não havia “palavras de Jesus”. Os evangelhos e sua vida terrena ainda não tinham sido inventados.

É possível que versões primitivas dos evangelhos já existissem no final do primeiro século, mas não faziam parte da corrente paulinista, predominante. Só durante o segundo século começaram a ser mencionados e se incorporaram ao conjunto de crendices contraditórias que cercava a figura de Cristo, defendidas por centenas, talvez milhares de seitas que brigavam entre si.


Os evangelhos são uma montagem de elementos de várias fontes:
Muitos dos ensinamentos atribuídos a Jesus foram encontrados nos manuscritos do Mar Morto, escritos pelos essênios pelo menos 100 anos antes de Cristo. Eles eram conhecidos pelo seu desprezo às coisas materiais, faziam-se batizar para a purificação do corpo e do espírito e iniciavam a vida pública aos 30 anos, após 40 dias de jejum no deserto. Esperavam para breve a vinda do reino de Deus.

Frases como “amar seus inimigos”, “se lhe pedem o casaco dá também a camisa” e “dar a outra face” derivam dos estóicos/cínicos, um movimento filosófico de origem grega que pregava o retorno a uma vida mais simples e humilde, em oposição ao materialismo da sociedade urbana.

Muitos outros foram tirados do “Documento Q”, uma coleção de ditos resultantes da mistura da filosofia estóica/cínica, com o messianismo judeu. Quando os evangelistas inventaram uma vida terrena para Jesus, cada um localizou os ditos em contextos diferentes. Exemplos:

– A história do salvador nascido de uma virgem e tentativas de matá-lo quando criança;
– Sua morte e ressurreição (em vários casos, no terceiro dia);
– Céu, inferno e juízo final (que não existiam no judaísmo original);
– Petra, no mitraísmo e no “Livro dos Mortos” egípcio, era o guardião das chaves do céu. O mitraísmo também denominava Petra a um rochedo considerado sagrado;
– Hórus lutou durante 40 dias no deserto contra as tentações de Satã;
– Hórus, a luz do mundo; o caminho, a verdade e a vida;
– Hórus batizado com água por Anup;
– Hórus representado por uma cruz;
– A trindade Atom (o pai), Hórus (o filho) e Ra (o espírito santo);
– Hórus e Mitra tinham 12 discípulos;
– Apolônio, Mitra e Hermes eram conhecidos como “bom pastor” e eram representados com um cordeiro nos braços;
– A última ceia, freqüentemente com uma bebida e um alimento que representavam o corpo e o sangue de algum deus;
– A estrela guia, elemento freqüente em lendas e mitologias antigas;
– Tamuz, deus da Suméria e Fenícia, foi gerado por uma virgem, morreu com uma chaga no flanco e, três dias depois, levantou-se do túmulo e o deixou vazio com a pedra que o fechava a um lado. Belém era o centro do culto a Tamuz.


Falsas profecias:
Uma comparação cuidadosa revela que vários outros trechos foram aproveitados fora de contexto ou tomados como profecia, quando na verdade se referiam a outras coisas. Exemplos:

– Lucas 01:28-33, onde o nascimento de Jesus é anunciado a Maria, uma cópia quase exata de Sofonias 03:14-18, onde se profetiza o triunfo de Israel sobre as nações que a oprimiram;
– Mateus 02:05-06 e João 07:42, onde se diz que o nascimento de Jesus em Belém fora profetizado. Entretanto, o trecho que fala de Belém (Miquéias 05:02), se refere ao clã de David, Belém Éfrata, e não a uma cidade. Além disto, mesmo que fosse uma cidade, o tal Messias profetizado viria para espalhar o terror e a morte entre os inimigos de Israel e torná-la poderosa, enquanto que Jesus afirmou que “meu reino não é deste mundo”;
– Mateus 01:22 cita Isaías 07:14 sobre o nascimento do messias de uma virgem, quando Isaías falava de uma criança de seu tempo, 700 anos antes de Cristo, não de uma virgem mas de uma jovem, não de Jesus mas de Emanuel;
– Mateus 21:01-07 (e os outros evangelistas) dizem que a entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumento fora prevista em Zacarias 09:09 mas, mais uma vez, o rei de que fala Zacarias era um rei humano, que reinaria sobre Israel, não Jesus. As aclamações do povo foram tiradas do Salmo 117:26 (“Bendito o que vem em nome do Senhor”);
– Mateus 26:15 e 27:03-10 fala da traição de Judas e das 30 moedas como tendo sido profetizada em Salmos 41:09 e Zacarias 11:12-13. Entretanto, nenhuma das passagens fala do messias. Nos salmos, é David, o autor, que se diz traído e se considera um pecador.

E Zacarias diz ter recebido as 30 moedas por um serviço prestado, sem nenhuma traição envolvida (e ele também devolve as moedas). Mateus diz que a compra do campo do oleiro com as 30 moedas fora profetizada por Jeremias, mas tal profecia não existe.

– João 02:14-16 (e os outros evangelistas) falam sobre como Jesus expulsou os vendilhões do Templo. Considerando-se o tamanho do pátio do Templo e o fato de que o comércio de animais era essencial à realização dos sacrifícios pelos fiéis, não tinha nada de ilegal e tinha o apoio das autoridades religiosas, parece improvável que um único homem com um chicote conseguisse expulsar a todos, ainda por cima impunemente. Esta passagem parece ter sido inspirada em Zacarias 14:21 (“Naquele dia não tornará mais a haver mercador na casa do Senhor dos Exércitos”) e Jeremias 07:11 (“Esta minha casa está convertida em um covil de ladrões”);
– Os Salmos 22:02-19 e 69:22 foram usado na crucificação, embora nele David falasse de seus inimigos e da perseguição que sofria do rei Saul: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? [...] Todos os que me vêem zombam de mim, abrem a boca e balançam a cabeça: "Ele recorreu a Javé ... pois que Javé o salve! Que o liberte, se é que o ama de fato!" [...] Cães numerosos me rodeiam, e um bando de malfeitores me envolve, furando minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos. As pessoas me observam e me encaram, entre si repartem minhas vestes, e sorteiam a minha túnica". "Como alimento me deram fel, e na minha sede me deram vinagre”

De qualquer modo, não se podem levar a sério profecias que se dizem realizadas no mesmo livro em que foram feitas. É preciso que a comprovação seja externa ao livro. E isto não acontece. Um exemplo perfeito de profecia fracassada está em Ezequiel 26 e 29 (NOTA 2). E pode-se suspeitar de que várias "profecias" foram feitas depois do fato ocorrido.

Profecias e histórias sobre o justo que sofreu, foi injustamente acusado, perseguido e morto (ou foi salvo da morte no último instante), sendo então reabilitado e exaltado, são comuns ao longo da Bíblia. Refletem provavelmente os sonhos de grandeza dos judeus, povo freqüentemente perseguido e escravizado, e suas esperanças de que seu deus os ajude a triunfar sobre povos que os oprimiam.

Além disto, mesmo que Jesus tivesse existido, ele certamente seguiria as Escrituras como um roteiro para provar que era o Messias. Por exemplo, entraria em Jerusalém montado num jumento como fez o rei humilde em Zacarias 09:09. Note-se que os evangelhos dizem claramente “e ele o fez para que se cumprissem as Escrituras”.


Cronologia resumida do surgimento dos evangelhos:

Há uma epístola apócrifa, denominada 1 Clemente, enviada de Roma aos Coríntios no ano de 96 d.C., onde pela primeira vez Jesus é mencionado como mestre e ensinamentos lhe são atribuídos. Várias passagens lembram o Sermão da Montanha mas há outras que também lembram os evangelhos mas não são atribuídas a ninguém ou então citam o Antigo Testamento. Ainda não há menções a uma vida terrena nem sobre milagres ou João Batista. Mesmo quando fala do julgamento e morte de Cristo, Clemente cita Isaías. Seu Jesus parece ser algo que ele construiu a partir das Escrituras.

Por volta do ano 107 d.C., nas 7 cartas escritas por Inácio, surgem as primeiras menções a Herodes, Pôncio Pilatos e Maria. Há até um trecho sobre a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos, mas ainda nada se diz dos evangelhos ou que Jesus tivesse sido um mestre.

Na época de Inácio foi escrita a Didaké (ou Didache), onde nada se fala dos ensinamentos de Jesus e a oração do Pai Nosso é atribuída diretamente a Deus. Nada de última ceia, morte e ressurreição. Deus é o mestre e Jesus aparece apenas como filho de Deus e seu servo, cuja função é servir de canal de comunicação entre Deus e os homens.

O nascimento de um Jesus terreno aparece pela primeira vez no texto “Ascensão de Isaías”, que data de 115 d.C. Mas a história é diferente. Jesus nasce na casa de Maria e José em Belém, não numa mangedoura durante uma viagem, e Maria só mais tarde descobre que seu filho era especial. Nada sobre pastores, magos, Herodes e fuga para o Egito. Os evangelistas se basearam nesta história mas cada um a modificou à sua maneira, mantendo em comum apenas a referência a Belém, provavelmente por causa da profecia de Malaquias sobre o nascimento lá de um futuro rei de Israel. A fuga para o Egito, por exemplo, só existe num dos evangelhos. Em outro, Jesus volta diretamente para casa e é apresentado no templo (NOTA 3).

A primeira referência a Pilatos numa epístola surge em 1 Timóteo 6:13, que deve ter sido escrita por volta de 115 d.C., mas ela é tão omissa quanto ao resto que acredita-se que esta seja uma inclusão posterior. 1 Tessalonicenses afirma que os judeus mataram Jesus mas há um consenso entre os estudiosos da Bíblia sobre esta ser uma inclusão posterior também.

2 Pedro, escrita por volta de 120 d.C., fala na vinda futura de Jesus (não o seu retorno) e seu autor cita profecias do AT, não uma promessa feita por Jesus. No fim do capítulo 1, esta epístola menciona algo que lembra a transfiguração de Jesus dos evangelhos mas o fato é apresentado como uma amostra do que seria a vinda futura de Jesus e de seu poder. E a fonte, mais uma vez, são as Escrituras, não um Jesus terreno.

Barnabás (120 d.C.) é mais uma coleção de tradições orais e lendas, sem menção aos evangelhos ou Jesus de carne e osso, embora algumas passagens lembrem seus ensinamentos e haja vagas referências a acontecimentos históricos. Quando fala da paixão de Cristo, se baseia nas Escrituras.

Uma carta de Policarpo, bispo de Esmirna (130 d.C.) já está bem próxima dos evangelhos em vários trechos mais ainda faz referência aos documentos acima, não aos evangelistas.

Há escritos de Papias da época de Policarpo que se perderam mas são mencionados por Eusébio e estes começam a fazer referência aos evangelhos. Segundo Eusébio, Papias disse que um certo João disse que Marcos tinha sido o intérprete de Pedro e registrou o que Pedro ainda se lembrava dos ensinamentos do Senhor, aos pedaços e sem ordem. Ou seja, ainda não era um evangelho narrativo.

Por volta de 140 d.C, o gnóstico Marcião usou trechos de uma versão prévia do que viria a ser o evangelho de Lucas. Sabemos disto porque Tertuliano condenou sua interpretação do texto anos mais tarde. A versão que Marcião usou era diferente da atual, o que mostra que os evangelhos passaram por várias revisões. E isto ocorreu provavelmente porque na época os evangelhos não passavam de textos soltos de vários autores e ninguém os considerava sagrados nem inalteráveis, apenas considerações pessoais sobre Jesus e seus ensinamentos.

Na verdade, este processo de revisão pode ser visto ao longo dos 30 anos que separam Marcos de João. Cada um é uma adaptação do anterior à realidade de sua época. Um exemplo é o progressivo envolvimento dos judeus na condenação de Jesus e a “desculpabilização” dos romanos.

Os evangelhos, aliás, nem tinham nomes. Justino, o Mártir, por volta de 150 d.C. ainda os chama apenas de “Memórias dos Apóstolos” e o que ele cita são apenas ensinamentos soltos. Tais trechos divergem dos evangelhos atuais e não há nada do evangelho de João.

A primeira menção que já foi encontrada aos 4 evangelistas é a de Ireneu, bispo de Lyons, por volta de 180 d.C., onde ele comenta que deveria haver 4 evangelhos porque havia 4 ventos e 4 cantos da Terra.

Finalmente, acredita-se que os Atos tenham sido escritos pela igreja de Roma em meados do segundo século para criar uma imagem mais favorável de Paulo, que na época era apontado pelos gnósticos como seu líder (por se basear apenas nas revelações recebidas diretamente de Deus e não através da Igreja, ou seja, do Jesus terreno e dos apóstolos). As epístolas, pelo contrário, mostram Paulo rejeitando a versão de Tiago e os outros, embora eles tivessem convivido com Jesus.


Notas:

(1) Os gregos (e também os europeus até os tempos de Copérnico e Galileu) acreditavam que a Terra era o centro do universo. Em volta dela havia esferas de cristal concêntricas, cada uma sustentando um dos 7 planetas conhecidos. Na esfera mais interior, a da Lua, ficavam os demônios, mensageiros entre os homens e os deuses, e além da sétima esfera ficavam os deuses. Para Paulo e seus correligionários, em vez dos deuses havia um único deus e os demônios eram forças do mal (em Efésios 06:12 eles estão nas regiões celestes; só mais tarde foram relegados às profundezas da terra; são eles os dominadores do mundo, não os humanos). Segundo apócrifos do fim do primeiro século, como a “Ascensão de Isaías”, Jesus teria partido numa jornada através das esferas até chegar à mais interior, nascendo de uma mulher (assim como Attis nascera de Cibele e depois se sacrificara). Os demônios, sem perceber quem ele era, o teriam morto. No final do século I, nenhuma menção a um Jesus terreno. Nada de perdão dos pecados, nada de ensinamentos. Pilatos não o julgou, não houve Calvário. A missão desse Jesus, que tinha aparência humana mas não era de carne e osso, era derrotar o anjo da morte e resgatar os justos. I Coríntios 02:08 fala novamente dos dominadores do mundo, não de Pilatos, por exemplo. Orígenes e Marcião também interpretam Paulo desta forma. Jesus desce então aos infernos (o Sheol) e ressuscita três dias depois. Retorna aos céus levando com ele as almas dos justos e, a partir desse dia, os justos que morressem iriam também para o céu. Este era o segredo escondido, no qual era preciso acreditar para se escapar do inferno. Jesus era o cordeiro imolado desde o início dos tempos (e não no ano 33).

(2) Ezequiel 26 diz que Yaveh deu a cidade de Tiro a Nabucodonosor para saquear e destruir. A cidade seria coberta pelo mar e nunca mais voltaria a existir. A história nos diz que Tiro foi sitiada por Nabucodonosor mas que este não conseguiu tomá-la. A cidade foi destruída séculos mais tarde por Alexandre o Grande mas recuperou-se e é hoje uma cidade moderna. E o mar não a cobriu. Ezequiel 29 diz que, como compensação pelo fracasso em Tiro, Yaveh lhe daria Egito e os países vizinhos, também para saquear e destruir. O Egito seria devastado para sempre e seus habitantes se dispersariam pelo mundo. Nada disto aconteceu.

(3) A estrela guia é um elemento comum nas histórias de heróis antigos e também há uma matança de inocentes na lenda de Moisés. Herodes matou vários de seus próprios parentes com medo que lhe tomassem o poder, o que pode ter inspirado os evangelistas, mas não há registro histórico de matança indiscriminada de crianças.


Fontes:

Sobre a definição do cânon da Bíblia: http://www.infidels.org/library/modern/larry_taylor/canon.html

Sobre o uso de passagens do Antigo Testamento: Miracles and the book of Mórmon:
http://www.bowness.demon.co.uk/mirc1.htm

Sobre a influência de religiões antigas:
http://www.strbrasil.com/Atheos/jesus.htm
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=2092&cat=Ensaios

Sobre a ausência de menções a um Cristo histórico no primeiro século: The Jesus Puzzle, por Earl Doherty:
http://www.humanists.net/jesuspuzzle/home.htm

24 de abr. de 2011

CONVERSÃO EM PALAVRAS

            Palavras são instrumentos utilizados constantemente.  Palavras que aprisionam, amedrontam, escravizam. Impedem o raciocínio.
            Assim foram as palavras que escutei sobre a salvação. Você sempre é lançado em um roteiro de terror, onde as conseqüências muitas vezes são paralisantes e a gente fica sem saber para onde ir.
            Você é levado a se tornar, mesmo que não seja, extremamente infeliz, desesperado, culpado dentro do seu íntimo. Por mais que você não esteja desta forma em sua vida cotidiana. É como se toda a humanidade tivesse que pagar um preço que não é dela. Tivesse que carregar um peso que não é dela.
            A conversão vem sempre como uma resposta para seus momentos de crise, resolvendo os impasses emocionais. Os pregadores nessas horas viram mestres em Psicologia em suas palavras do púlpito, alimentando cada vez mais o estado de desespero e no final dando a solução para todos os problemas: Cristo é a resposta.
            Posso chamar isso de política do caos. Da destruição. E muito bem utilizadas. É justamente desta forma que a igreja tende a crescer, principalmente nas áreas em que os processos sociais são raros e provocam sofrimento nas pessoas. Angústia, medo da morte, problemas existenciais, culpa, pobreza, são estados de prato cheio para os evangelistas.
            O que podemos perceber é que em estados de alegria, saúde e conhecimento, além de estados de dinheiro, a ocorrência é bem menor e a linguagem do cristianismo quase não é escutada.
            Quando se adquire um conhecimento do próprio mundo que se vive, as suas descobertas passam a trazer novos horizontes e liberdade para se ter um pensamento que o leva para fora da gaiola.
            A conversão é uma solução para problemas dolorosos da emoção. Da perda de um parente, da perda de um emprego, de uma casa, um carro, ou algo que venha a afetar o equilíbrio de uma pessoa. Ela se torna parte de algo que não queremos mais sentir e ajuda a não mais voltar, impede dos problemas retornarem. Só que não admitimos que eles estejam lá, pois estamos envoltos em uma camada de palavras que nos fazem suprimir a realidade.
            Devemos então buscar um processo de cura. Não deixar que nossas convicções nos atrapalhem de tentarmos novos horizontes e novas respostas, apesar de sabermos que muitas delas são incompletas, mas que trazem novos lugares dantes não conhecidos e que se tornam parte de você e acima de tudo, possuem lógica.
            Podemos descobrir que não somos tão vermes assim como nos disseram, mas que podemos matar os vermes que nos fazem cegar. Que podemos ser parte da solução e não do problema e que temos a capacidade de conquistarmos muitas coisas.
            Kant disse que “as paixões são um câncer para a pura razão prática”, o que posso entender que, quando a razão chega, quando a descobrimos e começa também a fazer parte de nossa história, ela cala a voz das emoções e podemos nos revestir ainda de nossos sonhos e desejos com a coragem da própria lógica.
            

15 de abr. de 2011

PROPAGANDA GOSPEL

Menino evangélico ora e é poupado por atirador em Realengo


Mateus Moraes, 13 anos, orou, pediu para não ser morto e ouviu do assassino dos colegas: 'Fica tranquilo que não vou te matar' foi talvez o único aluno que teve a clemência do atirador Wellington Menezes, na Escola Municipal Tasso Vieira, em Realengo. Enquanto o criminoso disparava, frio e impassível contra seus colegas, Mateus orava perto do quadro negro, sem ser incomodado, na sala 1801, no primeiro andar do prédio da escola.
Fonte: 180graus/IG
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NOTA: Será que precisamos deste tipo de propaganda? Acho falta de respeito para com as famílias das outras vítimas e falta de respeito com as próprias vítimas que foram abatidas. Creio que perderam oportunidade de ficarem calados.
Respeitem a dor das famílias atingidas.


14 de abr. de 2011

NÃO, NÃO E NÃO!



Essa semana fui bombardeado, como os judeus por Hitler e pelo Hamas, por meus antigos "irmãos" com ameaças de que "coisas" começarão a acontecer comigo para que eu volte para a igreja. E que eu não me admire se vier a acontecer. Cuidado com minhas palavras e o que vou dizer. Terrorismo em mais alto grau.
Jogaram-me no inferno para ser mais radical.
Puxa vida, não entendo como pode isso acontecer. Nos púlpitos pregam o amor de Cristo no entanto não o vivem. São terroristas gospel. A inquisição evangélica. Afinal, eles também querem criar a sua própria e queimar seus desafetos.
Logo após, começam a falar de amor. Algo tão hipócrita e contraditório. Lobos em pele de cordeiro. 
Verdadeiramente não consigo entender e nem aceitar mais tais atitudes. E pensar que fui um dia assim.  

28 de mar. de 2011

IMBECILIDADE À FLOR DA PELE



Imagens como essas me tocam, não só pelo fato de serem seres humanos maltratados, mas pelo fato da imbecilidade da religião. O que ela causa. Os males que ela faz em que o homem se transforme. As invenções dos homens que aprisionam e que o transformam em um animal mais bruto que os irracionais. Os irracionais agem pelo puro instinto, os homens, por puro prazer. Por serem cruéis. Pela busca de poder e domínio. Eu não falo somente sobre os religiosos. Há pessoas de todos os tipos que agem por puro prazer de ver o outro sofrer. Continuo tendo a certeza que independe de qualquer coisa. Não precisa ser o homem religioso ou ateu ou agnóstico, o agir está dentro de cada um: bem ou mal.

6 de mar. de 2011

CAMPANHA DE AUXÍLIO AOS BANDIDOS

POR BRUNO PONTES
Meu artigo no jornal O Estado

Se os presos de São Paulo valessem pelo eleitorado nacional, Dilma Rousseff teria sido eleita no primeiro turno, com 63,50% dos votos válidos, à frente de Marina Silva (com 20,65%, sinal de que a política verde começa a ganhar respaldo no sistema carcerário, talvez porque seus moradores prefiram a vida na natureza à vida na cela) e de José Serra (14,38%), o antigo gerente da segurança de São Paulo que, por razões misteriosas, os detentos quiseram longe do comando da segurança nacional.

Caso os eleitores de Dilma estejam para sair da cadeia, já podem planejar novas estripulias. Dando continuidade ao projeto de fazer do Brasil um país de todos, o ministro da Justiça anunciou que o governo irá retomar "com muito vigor" a campanha de desarmamento, ampliando o mercado de trabalho para ladrões, traficantes e assassinos. Segundo José Eduardo Cardozo, "uma população armada é uma população violenta", sendo necessário ignorar o resultado do referendo de 2005, no qual os brasileiros se negaram a permitir que lhes fosse tirado o direito à legítima defesa, a despeito da falaciosa propaganda em contrário executada pela Rede Globo e por ONGs financiadas do exterior.

Os desarmamentistas informam que as mortes por bala não diminuíram; logo, sofismam eles, é preciso recolher armas. Recolher do povo ordeiro e nunca dos criminosos. Cardozo assumiu avisando que pretende espalhar pelo Brasil os métodos da tal polícia pacificadora, aquela que informa seus movimentos com um mês de antecedência para livrar os bandidos do vexame de serem pegos com o fuzil na mão. O Brasil registra 50 mil homicídios por ano (o Iraque é mais pacato) e o governo petista segue agindo pela diretriz de facilitar a vida do bandido. Exemplo desse enfoque revolucionário é a portaria do Ministério da Justiça e da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, assinada no último dia do governo Lula, limitando o uso de armas letais pelas forças policiais do país.

A partir de abril, agentes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, do Departamento Penitenciário Nacional e da Força Nacional de Segurança Pública estão obrigados a dar dois alertas que não representem risco de vida ao suspeito, com emprego de armamento não letal, antes de puxar a arma de fogo. Também fica proibido disparar contra aqueles que furarem bloqueio policial em via pública.

De acordo com minhas fontes no submundo, a medida foi aplaudida por 92% da bandidagem. Os 8% restantes julgam a portaria conservadora e lamentam que a polícia não tenha sido aposentada de vez.

Se "uma população armada é uma população violenta", Cardozo deve explicar por que a Suíça, um dos países mais armados do mundo, apresenta índices de criminalidade de fazer inveja à Terra do Nunca, e por que os suíços, em plebiscito realizado no último dia 13 de fevereiro, optaram por não se desarmarem. Para o advogado Bene Barbosa, presidente do Movimento Viva Brasil e um dos coordenadores da campanha do "Não" no referendo de 2005, não surpreende que brasileiros e suíços pensem igual: "Somos países diferentes, com culturas diferentes, mas a necessidade de defesa é universal. É um direito natural de todo ser humano. É absurda a idéia de que uma minoria pode tirar isso de todos."

Talvez Cardozo possa nos convencer de que os suíços estão errados e os petistas, certos.

Cartaz contra desarmamento na Suíça: "Monopólio de armas para criminosos? Não"

28 de fev. de 2011

FUMAR CONTINUA MATANDO DEMAIS!! PERCA UM TEMPO, MAS LEIA.


Fumaça Radioativa
A indústria do tabaco sabe há décadas como remover isótopo perigoso dos cigarros, mas se omite. Agora, o governo americano pode forçar uma mudança de comportamento nesta área. No Brasil mortes por tabagismo somam 552 vítimas a cada dia
por Brianna Rego DA SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL
Em novembro de 2006, a morte do ex-agente da kgb Alexander Litvinenko em um hospital de Londres tinha todas as marcas de um assassinato da Guerra Fria. Apesar da intriga, o veneno que o matou, um isótopo radioativo raro, o polônio-210, é bem mais difundido que imaginamos: pessoas no mundo todo fumam quase 6 trilhões de cigarros por ano, e cada um deles manda uma pequena quantidade desse elemento para os pulmões. Tragada a tragada, o veneno se acumula em quantidade equivalente a 300 raios X de tórax por ano para uma pessoa que fuma um maço e meio por dia.

Apesar de o polônio não ser o principal carcinógeno na fumaça do cigarro, pode causar milhares de mortes por ano apenas nos Estados Unidos. E o que o diferencia é que essas mortes poderiam ser evitadas por medidas simples. A indústria do tabaco sabe da presença do polônio nos cigarros há quase 50 anos. Pesquisando os documentos internos da indústria tabagista, descobri que os fabricantes até desenvolveram processos que cortariam dramaticamente as concentrações desse isótopo. Mas escolheram conscientemente não tomar qualquer iniciativa e manter as pesquisas em segredo. Consequentemente, os cigarros contêm tanto polônio hoje quanto há meio século.

Mas esta situação pode estar a ponto de mudar. Em junho de 2009, o presidente americano, Barack Obama, assinou a Lei de Prevenção ao Fumo em Família e Controle do Tabaco. A legislação traz pela primeira vez o tabaco para a jurisdição da Food and Drug Administration (FDA), permitindo à agência regular certos componentes dos cigarros. Forçar a indústria a finalmente remover o polônio seria uma das maneiras mais diretas de torná-los menos mortíferos.

A primeira pista de que o polônio-210 estava chegando aos pulmões dos fumantes veio quase por acaso. No início da década de 60, os efeitos da radiação na saúde, e em particular do decaimento radioativo, estavam presentes na mente dos cientistas – assim como na da maioria das outras pessoas. Na época, a radioquímica Vilma R. Hunt e seus colegas da Harvard School of Public Health desenvolviam uma técnica para medir níveis muito baixos de rádio e polônio, os dois elementos descobertos por Pierre e Marie Curie em 1898. Ela conta que, em um dia de 1964, estava passando os olhos pelo laboratório quando eles pousaram nas cinzas do cigarro de um colega. Por curiosidade, ela decidiu testar as cinzas com sua nova técnica.

Quando Vilma observou os resultados, ficou surpresa por não encontrar sinais de polônio. Concentrações residuais de isótopos radioativos são comuns no ambiente e contribuem para a radiação de fundo natural. Nenhum outro material orgânico, incluindo as plantas, dera um resultado negativo para o polônio na presença do rádio. Mas na temperatura do tabaco em brasa, o polônio se transforma em vapor. Então, ela subitamente percebeu que o polônio que faltava deveria ter virado fumaça! E isso significava que os fumantes o inalariam diretamente para os pulmões.

Corridas ao hospital
Junto com Edward P. Radford, seu colega de Harvard, Vilma Hunt publicou a descoberta – com medições diretas do polônio na fumaça do cigarro – na revista Science. Logo outros, em Harvard, começaram a estudar o polônio tanto nos cigarros quanto nos pulmões dos fumantes. Em 1965, o radiologista e médico John B. Little examinou o tecido pulmonar de fumantes em busca de sinais de polônio. A tarefa não foi fácil. Conseguir amostras de tecidos vivos teria sido invasivo demais, então ele teve de trabalhar com cadáveres. O problema é que o revestimento mucoso do pulmão decai duas ou três horas após a morte. Ele deveria extraí-lo logo após a morte, o que envolvia várias corridas ao hospital em diferentes horas do dia e da noite. Little conseguiu demonstrar que o polônio realmente se acumulava em áreas específicas do pulmão. Por causa da forma com que nossas vias aéreas se ramificam nos brônquios, bronquíolos e alvéolos, os radioisótopos se concentram nos pontos de bifurcação. Ali, eles formam focos de radioatividade, emitindo partículas alfa.

Nos dez anos seguintes, os cientistas continuaram a pesquisar o polônio na fumaça dos cigarros e o modo com que ele chega à planta de tabaco em si – e, portanto, em que estágio do processo de manufatura do cigarro ele pode ser retirado de modo mais eficiente.
O polônio-210 é produto do decaimento do chumbo-210. No artigo de 1964, Radford e Hunt especularam sobre duas possibilidades: ou os produtos do decaimento do radônio-222 natural na atmosfera, que incluem o chumbo-210, se depositavam nas folhas, ou o chumbo-210 do solo fertilizado era absorvido pelas raízes da planta. Como se verificou mais tarde, ambas estavam corretas.

Pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) verificaram a questão do polônio nos fertilizantes. Um experimento de 1966, feito pelo USDA e pela Comissão de Energia Atômica, testou dois tipos diferentes de fertilizantes, um “superfosfato” comercial e uma mistura especial feita de fosfato de cálcio quimicamente puro. As diferenças foram notáveis. O fertilizante comercial tinha cerca de 13 vezes mais rádio-226 que a mistura especial, resultando em quase sete vezes mais polônio nas folhas. Edward Martell, do National Center for Atmospheric Research (Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas), em Boulder, Colorado, retomou a questão em 1974. Ele sugeriu que solos contendo fertilizantes de fosfato ricos em urânio liberariam radônio-222 na atmosfera, levando sua concentração para níveis acima dos normais. O radônio decairia para chumbo-210, que se depositaria nas plantas em crescimento, aderindo aos milhares de pequenos pelos chamados tricomas que cobrem as folhas de tabaco.

Assim como o grupo de Harvard, Martell também estava preocupado com o acúmulo de polônio-210 em certas áreas do pulmão. Já era aceito havia algum tempo que a exposição à radiação dos produtos do decaimento do radônio era a principal causa do aumento do risco de câncer nos mineradores de urânio. Assim, ele argumentou que a exposição crônica dos fumantes a doses baixas e concentradas de polônio-210 podia ser a principal causa de câncer de pulmão e talvez – como sugeriria depois – também de outros tipos de câncer.

Assim como no caso dos mineiros, o perigo não viria com uma dose alta em um dado momento, mas com a exposição contínua a doses baixas por um período extenso. Um fumante estoca seu suprimento de polônio a cada trago; portanto, a alta exposição associada a uma vida inteira de fumo lhe traria risco de câncer, apesar da dosagem relativamente baixa de polônio- 210 por cigarro. Em 1974, após introduzir polônio na traqueia de ratos, Litlle e um colega seu de Harvard, William O’Toole, puderam confirmar a hipótese: 94% dos ratos no grupo de exposição mais alta desenvolveram tumores de pulmão com doses tão pequenas que seus tecidos não mostravam inflamações.

Desde então, é claro, outros componentes da fumaça do cigarro também se mostraram carcinógenos potentes, e hoje a maioria dos especialistas provavelmente diria que os principais são compostos como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e nitrosaminas. Ainda assim, estimativas conservadoras baseadas no risco de exposição à radiação sugerem que o polônio-210 pode ser responsável por 2% dos cânceres de pulmão induzidos pelo fumo, o que significa milhares de mortes por ano apenas nos Estados Unidos. Alguns especialistas apontam que os efeitos do dano pela radiação e outros carcinógenos provavelmente exacerbam uns aos outros. Para a indústria do tabaco, o polônio parecia perigoso o bastante para exigir estudos extensivos.

“SEM VANTAGENS COMERCIAIS ”
Em contraste com os cientistas externos, os pesquisadores da indústria nunca publicaram seus estudos sobre o polônio nem divulgaram a existência deles. Mas nos anos 90 julgamentos históricos provocados por 46 estados americanos contra a indústria forçaram os fabricantes a admitir que o fumo é perigoso e cria dependência, o que resultou na liberação de milhões de documentos internos. Milhares deles mostravam que o polônio havia sido extensamente debatido dentro da indústria por muito tempo, até nos escalões mais altos.

O artigo original de Radford e Vilma apareceu poucos dias após o aviso do chefe do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos sobre os riscos do fumo expedido em 11 de janeiro de 1964. Imediatamente após a publicação desses dois documentos, memorandos internos mostram que os fabricantes começaram a se preocupar, porque poderiam enfrentar um desastre de relações públicas caso viesse a público o que sabiam sobre o polônio. Ciente do risco, a indústria logo começou a direcionar recursos humanos e financeiros para o desenvolvimento de programas internos de pesquisas sobre o polônio, feitos a portas fechadas.

Em 1977, por exemplo, pesquisadores da Philip Morris completaram um rascunho de artigo chamado “Ocorrência natural de produtos do decaimento do Radônio-222 no tabaco e condensado de fumaça”, que os autores queriam enviar à revista Science. O diretor de desenvolvimento de produtos enfatizou em um memorando de 1978 para outro cientista que ele tinha medo de publicá-lo. Esse cientista respondeu: “Ele tem o potencial de acordar um gigante adormecido. O assunto é barulhento e não acho que devamos fornecer dados”. O que preocupava o departamento legal da Philip Morris era que, apesar dos números diferentes, o artigo essencialmente concordava com a pesquisa publicada: há polônio no tabaco, e ele é perigoso. Em meados de julho, conforme sugestão do departamento jurídico, o texto não teve aprovação para ser publicado.

Os fabricantes de cigarro, no entanto, continuavam a monitorar as pesquisas externas sobre o assunto e a explorar soluções potenciais para o problema do polônio. Eles debatiam os prós e os contras de diversas formas de reduzir o polônio na fumaça do cigarro, entre elas a adição de materiais ao tabaco que reagissem com o chumbo e o polônio para evitar sua transferência para a fumaça e o desenvolvimento de um filtro que bloqueasse o vapor de polônio. Outra opção direta, que se seguiu à pesquisa de Martell nos anos 70, era lavar as folhas de tabaco com uma solução diluída de peróxido de hidrogênio. Outras ideias incluíam o uso de fertilizantes com limite de produtos do decaimento do urânio-238 e a remoção dos tricomas coletores de chumbo das folhas curadas. “Chegamos até a tentar modificar geneticamente a planta de tabaco” para que as folhas ficassem lisas, diz William A. Farone, ex-diretor de pesquisa aplicada qa Philip Morris que mais tarde virou crítico das práticas da indústria e hoje trabalha como consultor do FDA.

Em 1975, o cientista do FDA T. C. Tso estimou que entre 30% e 50% do polônio poderia ser facilmente removido do fertilizante e que a lavagem eliminaria mais 25%. Adicionando a isso os efeitos de um filtro, o polônio do tabaco poderia ter sido quase completamente eliminado. Mas, como dizia um memorando de R. J. Reynolds, “a remoção desses materiais não traria vantagens comerciais”.

O polônio poderia ser um excelente primeiro “veneno” a ser banido do tabaco. É um único isótopo, em vez de um ingrediente complexo do fumo. Outros, como o alcatrão e o monóxido de carbono, são difíceis de tirar da fumaça, mas o polônio, não. As quatro décadas de pesquisas da indústria podem dar ao FDA um bom começo para obter resultados concretos. Além disso, alguns dos mesmos passos que reduziriam as concentrações de polônio na fumaça – como a lavagem das folhas de tabaco – também poderiam ajudar a remover metais tóxicos como chumbo, arsênico e cádmio. Esse é precisamente o tipo de regulação e mudança que o FDA tem agora o poder de promover.

A Organização Mundial da Saúde deixou claro que o fumo é a causa de morte mais evitável. Ela estima que 1,3 milhão de pessoas morram de câncer no pulmão no mundo todo a cada ano, 90% por causa do fumo. [No Brasil, mais de 200 mil pessoas são vítimas dos cigarros anualmente, segundo dados do Ministério da Saúde. Diariamente, 552 pessoas morrem no Brasil vitimadas pelo tabagismo.] Se o polônio tivesse sido reduzido por métodos conhecidos pela indústria, milhares dessas mortes poderiam ter sido evitadas. Os advogados da indústria escolheram conscientemente não agir sobre os resultados das pesquisas de seus próprios cientistas. Mas são os consumidores que devem viver com essa decisão. E morrer por causa dela.
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